Leandro, cuja desatada imaginação ia sempre mais longe que o engenho da natureza.
-Marlene está vindo ai hein!
-É... Eu sei, vai ser muito bom.
-Ela faz uma falta… Olha essa mulher! Que isso! Ela é muito grande, tem uns braços pequenos. Que coisa esquisita!
-Em que sentido?
-É só você olhar pro lado.
-Não! Eu digo: em que sentido a Marlene faz falta?
-Ahh tá! Ela é ótima, te estimula, te faz rir.
-Mas também com uma bunda dessas, né.
-Ô rapaz, mas respeito com a Marlene, por favor!
-Não, eu estava falando da mulher ao lado.
-…
-…
-Você já nadou hoje?
-Claro!
-E o resto do dia, não vai fazer nada?
-Vou, claro! Não tenho tempo para o ócio. Vou resolver uns pepinos pro meu pai. E você vai fazer o que a tarde?
-Nado.
-Pô, não vai fazer nada?
-É, na piscina…
sábado, 3 de julho de 2010
quarta-feira, 23 de junho de 2010
Sombreiro

“Televisão me dá um sono.”
Falou pro quarto vazio, enquanto andava devagar pelo corredor da casa escura.
Ela já havia se acostumado com a escuridão dos porões de outrora. Era março, e isso a impedia de se aventurar pelas ruas de Botafogo. O único momento em que saia de casa a passeio era no mês de fevereiro, quando os bairros do Rio de Janeiro estavam cheios de pessoas sorridentes curtindo as festividades da época do ano. Tinha pavor a ruas solitárias, e de poeiras de vento leve.
Chegou ao quarto e deitou a cabeça no travesseiro. Lembrou-se das histórias que sua avó lhe contara quando moça. Vovó Josefina dizia coisas sobre a senzala e costas calejadas de tanto carregar chicotada. Mas quando vinha a sua mente a penumbra dos cômodos subterrâneos, as chibatadas de sua avó pareciam mais carinho em neném recém nascido. Tudo que ela via em suas lembranças era a sombra do quarto semi iluminado e uma toalha que o sabujo enxugava o suor depois de...
..., e a porta se fechava em um barulho ensurdecedor que a acalmava.
Aquela visão que fora plantada no seu cérebro ainda permanecia, entre o som do silêncio. As noites tinham um ritmo semelhante. Ela ficava de olhos abertos, encolhida, coberta por uma manta de lã, sob a auréola de uma lamparina barata. De lá, não se ouvia muito, somente ruídos, sussurros. Sons que ficavam na divisa entre o real e o imaginário. A madrugada se estendia, e ela permanecia acordada com medo de sonhos agitados. Angustiada pelos murmúrios, dizia palavras:
“Olá escuridão, minha velha amiga.”
Tentava dispersar-se em coisas poucas. Conversava com as paredes, enquanto sua visão percorria os cantos do quarto. Um processo contínuo que se conservava até o sol aparecer.
Na manhã seguinte, primeiro dia de abril, ela se levantou e, certa de que não aguentaria se guardar até o próximo carnaval, foi até o banheiro e se enforcou com a toalha de suor de sabujo.
sexta-feira, 7 de maio de 2010
Tarde de Amor
Um outro dia de chuva, porém este permanecia sereno. Novamente estava caminhando pela praça, procurando por uma liberdade para viver e desfrutar daquele grande amor que tendia a aflorar. Ao meu lado: um casal apaixonado, um mendigo desvairado, restos de comida junto ao corpo de um torto que não mais tinha o gosto pela vida. Esperei sossegado com um curto olhado que não ia além daquilo que eu escrevia. Em um movimento circular eu a vi chegar e logo me empolguei com o lindo cabelo curtinho e aquele queixo e seu furinho.
Ah! Queria eu que ela fosse minha gueixa, no caso dela não japonesa, mas francesa, com aquela beleza tradicional que desempenharia o papel de hospedeira e dama de companhia. Atiramos-nos em um passeio desses em que os devaneios são mais fortes e te arrancam toda aquela visão centrada que tendemos para o norte. Ai! Mas que sorte aquele momento com aquele sorriso sincero e aquele olhar estonteante que me penetrava a mais profunda das escavas do meu peito. Sentia o enorme desejo de lhe dar um beijo e não se importar com as consequências das ardências posteriores. Mas não o fiz, tinha medo de entristecer quem já estava feliz. Fiquei calmo e disse o que se diz para uma mulher com uma franqueza pura que se quer. Falei com sinceridade tudo que havia acontecido desde aquela minha idade em que não sabia o que era o amor.
Chegando ao café sentei-me como um qualquer em uma mesa qualquer, para sentir novamente a descoberta da sua beleza. Ficava observando os seus movimentos, atento, para qualquer olhar que viria aos meus. Ela estava muito parecida com a primeira vez que a vi, bordada de xadrez. Ah, mas como eu queria que fosse a minha ocasião de mostrar como pode vingar essa minha paixão, esse meu amar. Naquele momento eu me esqueci dos problemas do meu cotidiano quase secular. E como a noite ia se firmando, em um pequeno momento de lucidez eu resolvi partir. Um abraço apertado, gostoso e um pouco amargo. Um olhar recíproco, contente. Foi a nossa linda tarde de amor, de afeição, de afeto, de amizade, de apego, de dedicação, de ternura e de idolatria. E foi assim que a deixei, sereno, pois sabia que mais tarde eu iria reencontrá-la para tomar um sorvete. Ilustres refrescos congelados de leite.
Ah! Queria eu que ela fosse minha gueixa, no caso dela não japonesa, mas francesa, com aquela beleza tradicional que desempenharia o papel de hospedeira e dama de companhia. Atiramos-nos em um passeio desses em que os devaneios são mais fortes e te arrancam toda aquela visão centrada que tendemos para o norte. Ai! Mas que sorte aquele momento com aquele sorriso sincero e aquele olhar estonteante que me penetrava a mais profunda das escavas do meu peito. Sentia o enorme desejo de lhe dar um beijo e não se importar com as consequências das ardências posteriores. Mas não o fiz, tinha medo de entristecer quem já estava feliz. Fiquei calmo e disse o que se diz para uma mulher com uma franqueza pura que se quer. Falei com sinceridade tudo que havia acontecido desde aquela minha idade em que não sabia o que era o amor.
Chegando ao café sentei-me como um qualquer em uma mesa qualquer, para sentir novamente a descoberta da sua beleza. Ficava observando os seus movimentos, atento, para qualquer olhar que viria aos meus. Ela estava muito parecida com a primeira vez que a vi, bordada de xadrez. Ah, mas como eu queria que fosse a minha ocasião de mostrar como pode vingar essa minha paixão, esse meu amar. Naquele momento eu me esqueci dos problemas do meu cotidiano quase secular. E como a noite ia se firmando, em um pequeno momento de lucidez eu resolvi partir. Um abraço apertado, gostoso e um pouco amargo. Um olhar recíproco, contente. Foi a nossa linda tarde de amor, de afeição, de afeto, de amizade, de apego, de dedicação, de ternura e de idolatria. E foi assim que a deixei, sereno, pois sabia que mais tarde eu iria reencontrá-la para tomar um sorvete. Ilustres refrescos congelados de leite.
segunda-feira, 8 de março de 2010
Êpa Êpa Babá
Escrevo agora este samba
Em homenagem ao músico que declama
O soneto da separação
Posto que a lama encontrou minha cama
E a tristeza veio logo sem fama rumo ao meu coração
No manto da minha alma dizer que reclama
Um molejo de amor machucado
Um, dois ou três pedidos negados
Vai lançar um verso disperso
No papel que eu tenho, eu peço
Que venha um som que desova
Do afro e da bossa nova
Camaleão puro e estonteante
Fez de mim um sujeito brilhante
Um poeta, diplomata, um dançante.
Grande influência e marco gritante.
É o Marcus Vinicius
De pouca ou de muita moral
O rapaz virou logo o tal
De Itapuã ao Rio de Janeiro
Foi de cada mulher por inteiro
E de fevereiro a fevereiro
Juntava tão pouco dinheiro.
O que importava mesmo era o uísque,
E o amor de uma próxima, que resiste.
Uma bebida alcoólica destilada, feita de pura cevada.
E o corpo de uma morena que vibra
Era a combinação perfeita para aquele poeta de tamanha barriga.
Era Vinicius de Moraes
Um homem de tantas loiras, mulatas e mulheres mais.
Em homenagem ao músico que declama
O soneto da separação
Posto que a lama encontrou minha cama
E a tristeza veio logo sem fama rumo ao meu coração
No manto da minha alma dizer que reclama
Um molejo de amor machucado
Um, dois ou três pedidos negados
Vai lançar um verso disperso
No papel que eu tenho, eu peço
Que venha um som que desova
Do afro e da bossa nova
Camaleão puro e estonteante
Fez de mim um sujeito brilhante
Um poeta, diplomata, um dançante.
Grande influência e marco gritante.
É o Marcus Vinicius
De pouca ou de muita moral
O rapaz virou logo o tal
De Itapuã ao Rio de Janeiro
Foi de cada mulher por inteiro
E de fevereiro a fevereiro
Juntava tão pouco dinheiro.
O que importava mesmo era o uísque,
E o amor de uma próxima, que resiste.
Uma bebida alcoólica destilada, feita de pura cevada.
E o corpo de uma morena que vibra
Era a combinação perfeita para aquele poeta de tamanha barriga.
Era Vinicius de Moraes
Um homem de tantas loiras, mulatas e mulheres mais.
domingo, 3 de janeiro de 2010
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Negrume Hodierno
“O cão não vê utilidade em carros elegantes, nem em casarões, nem em roupas de grife. Um graveto serve para ele. Um cão não se importa se você é rico ou pobre, talentoso ou sem graça, inteligente ou burro. Dê a ele o seu coração e terá o dele.”
John Grogan
São vários narcisos em um espaço só. Pessoas que com a dor e a exaustão buscam satisfazer o seu prazer. Um hedonismo contraditório, um gozo imediato e em longo prazo. E eu aqui em meu posto, no momento de observador, ou melhor, apreciador de todo esse espetáculo da evolução humana alheia. Fico esperando algum momento, um alvo para me satisfazer. Meu globo ocular funciona como mira, uma mira elaborada como as das metralhadoras israelitas mais sofisticadas. E é o esperar deste momento que me deixa vivo no meu tédio sonolento que me foi adequadamente reservado. Um movimento estático-móvel de corpos sem órbita, corpos que gritam o discurso: Preciso me encontrar. Como já dizia Candeia ao seu amigo Cartola em sua angústia antepassada.
A busca da concretização é extremamente onírica em um mundo fragmentado que dilacera seres humanos com tanta eficácia como uma guilhotina. As pessoas não se conhecem, não conhecem seus objetivos, estamos todos perdidos. A única sorte – que é cega – é que o poder das deserções chegou a uma escala tão elevada que já não somos mais capazes de sentir a angústia que Candeia sentia em seus anos rebeldes. Está ai o motivo da citação de John Grogan iniciar o texto. Os animais estão anos luz na nossa frente quando o assunto é valores e sinceridade. Para se ter um pouco de noção deste caminho apocalíptico que a humanidade está seguindo o ideal seria ter um encontro com Milton Santos, que se não fosse o documentário do cineasta brasileiro Sílvio Tendler seria impossível realizar esse importante encontro, pois Santos morreu buscando um outro caminho que fosse contra essa perversidade humana.
Bom mesmo seria reciclar o romantismo revolucionário do Sol nas bancas de revista. A busca de um propósito que era comum a todos da juventude explosiva daquela época que se podia sessentar. Mas não vou dizer que tudo está acabado, pois afinal temos nosso majestoso Funk, a atual MPB que nos representa. E uma mocidade que luta pelo que quer: mulheres, roupas, carrões, jóias. Tudo que nos faça sentir poderosos, um poder que acaba com o lançamento do próximo Iphone.
Um brinde a falta de comprometimento que o capitalismo bestial, porém necessário, nos obriga a ter. Ele ocupa nossa mente com estratégias de ganho e aplicação de capital e ofusca nossos valores que passam a ser outros, que comportam o canibalismo: o beneficio desonesto de uns sobre outros.
John Grogan
São vários narcisos em um espaço só. Pessoas que com a dor e a exaustão buscam satisfazer o seu prazer. Um hedonismo contraditório, um gozo imediato e em longo prazo. E eu aqui em meu posto, no momento de observador, ou melhor, apreciador de todo esse espetáculo da evolução humana alheia. Fico esperando algum momento, um alvo para me satisfazer. Meu globo ocular funciona como mira, uma mira elaborada como as das metralhadoras israelitas mais sofisticadas. E é o esperar deste momento que me deixa vivo no meu tédio sonolento que me foi adequadamente reservado. Um movimento estático-móvel de corpos sem órbita, corpos que gritam o discurso: Preciso me encontrar. Como já dizia Candeia ao seu amigo Cartola em sua angústia antepassada.
A busca da concretização é extremamente onírica em um mundo fragmentado que dilacera seres humanos com tanta eficácia como uma guilhotina. As pessoas não se conhecem, não conhecem seus objetivos, estamos todos perdidos. A única sorte – que é cega – é que o poder das deserções chegou a uma escala tão elevada que já não somos mais capazes de sentir a angústia que Candeia sentia em seus anos rebeldes. Está ai o motivo da citação de John Grogan iniciar o texto. Os animais estão anos luz na nossa frente quando o assunto é valores e sinceridade. Para se ter um pouco de noção deste caminho apocalíptico que a humanidade está seguindo o ideal seria ter um encontro com Milton Santos, que se não fosse o documentário do cineasta brasileiro Sílvio Tendler seria impossível realizar esse importante encontro, pois Santos morreu buscando um outro caminho que fosse contra essa perversidade humana.
Bom mesmo seria reciclar o romantismo revolucionário do Sol nas bancas de revista. A busca de um propósito que era comum a todos da juventude explosiva daquela época que se podia sessentar. Mas não vou dizer que tudo está acabado, pois afinal temos nosso majestoso Funk, a atual MPB que nos representa. E uma mocidade que luta pelo que quer: mulheres, roupas, carrões, jóias. Tudo que nos faça sentir poderosos, um poder que acaba com o lançamento do próximo Iphone.
Um brinde a falta de comprometimento que o capitalismo bestial, porém necessário, nos obriga a ter. Ele ocupa nossa mente com estratégias de ganho e aplicação de capital e ofusca nossos valores que passam a ser outros, que comportam o canibalismo: o beneficio desonesto de uns sobre outros.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
O Ar
O canto das aves do alvorecer me entristecia. Estava tranqüilo com a leveza daquilo que me fazia ver. Não passavam carros, não havia trânsito, eu me movia devagar para poder melhor escutar o que eu não podia olhar, e assim me envolver com as pessoas que ali pareciam permanecer. A cada deslocar era uma nova voz, um cantar. Era essa a satisfação que eu tinha, sem poder enxergar, as vozes eram o bastante, pois naquele instante me soou bem um gargalhar. Aproximei-me do lugar, me surpreendi, com dois rapazes e uma garota que estavam ali. Contei um pouco da minha história, falei sobre a demora de caminhar sem pressa pela praça dispersa. Disse a eles a respeito do meu namoro com a lua, e se tinha algo que eu realmente queria ver nessa minha vida era ela desnuda preenchendo o resto da minha face desfalecida. Falei, falei e falei. Pois afinal era esse o contato que eu podia ter com aqueles ingratos, ingratos pela falta de compaixão com a minha excitação de estar compartilhando com eles tudo que eu tinha de melhor: a minha eloquência.
Fiquei um pouco pasmo, porém não demonstrei, era fácil não demonstrar. Mas claro! Naquele momento tive uma pequena introspecção: como um cego de nascença iria revelar a expressão da sua vivencia? Era uma evidencia que aqueles tolos, na certa, não faziam pormenor idéia sobre o que se tratava realmente aquela minha prosopopéia. Era um espanto tal situação, todos três enxergavam muito bem o mundo a sua volta, mas aquilo não era nem um pouco prazeroso quanto o esboço que era minuciosamente projetado na minha imaginação. Pensei. Não precisamos mais do que comida para comermos e música para ouvirmos indistintamente, o resto é pleonasmo. E foi ai que percebi que eu era um cara sortudo por ser um cego astuto. Prolonguei um pouco mais o final da conversa para ver se eles notavam alguma diferença na estética. Eram tão insensíveis que mesmo tendo o sentido da visão não conseguiam notar a diferença entre um ator aposentado e um cego mal-acabado. Deixei de lado aquele trio prejudicado e fui me entreter com a brisa da noite do alvorecer.
Fiquei um pouco pasmo, porém não demonstrei, era fácil não demonstrar. Mas claro! Naquele momento tive uma pequena introspecção: como um cego de nascença iria revelar a expressão da sua vivencia? Era uma evidencia que aqueles tolos, na certa, não faziam pormenor idéia sobre o que se tratava realmente aquela minha prosopopéia. Era um espanto tal situação, todos três enxergavam muito bem o mundo a sua volta, mas aquilo não era nem um pouco prazeroso quanto o esboço que era minuciosamente projetado na minha imaginação. Pensei. Não precisamos mais do que comida para comermos e música para ouvirmos indistintamente, o resto é pleonasmo. E foi ai que percebi que eu era um cara sortudo por ser um cego astuto. Prolonguei um pouco mais o final da conversa para ver se eles notavam alguma diferença na estética. Eram tão insensíveis que mesmo tendo o sentido da visão não conseguiam notar a diferença entre um ator aposentado e um cego mal-acabado. Deixei de lado aquele trio prejudicado e fui me entreter com a brisa da noite do alvorecer.
Assinar:
Postagens (Atom)
.jpg)