domingo, 1 de maio de 2011

Dádiva da mãe Amália

(Nota sobre a aparição de discos voadores)


- Pep, olha bem que mama comprou para voi!

- Que mama?

- Este é um dispositivo substancioso que armazena canções.

Josep, desapontado com suas bolachas, resolveu aquietar. Foi até o móvel no vão da parede, agachou empinando a bunda para a vida e arremessou pela janela todos os seus discos, um a um.

domingo, 24 de abril de 2011

Vó Helena

(Entre-Rios Jornal, 09 de Abril de 2011)

Recebi de minha mãe a triste notícia de que minha avó havia partido. Tanto tempo sem vê-la e se vai, assim. Não foi por falta de aviso; não era de hoje que minha irmã falava dessa possibilidade, sempre com um tom de quem precisava de ajuda. E eu dando importância à trivialidades, incapaz de pegar um telefone e fazer uma ligação. Era o costume de não a ter por perto que fazia de mim um relapso. Nunca tive essa figura tão adorável que se tem quando garoto. A avó. Àquela que, sempre afetuosa, vem a casa e traz qualquer bobagem que te deixa feliz, que exalta qualquer coisa que o neto, ainda insignificante perto da grandeza do mundo, faça, construa; um caderno de terceira série, um desenho bobo, coisas assim que pra ela tem um valor imenso, que não sabemos. É uma figura que mesmo não presente, mandava uma carta, fazia uma ligação, me chamava de “Pedrinho”, assim como ninguém me chama.

Fui crescendo sem vê-la bordar. O tempo foi passando e ela já não ligava mais, já era mais velhinha, estava tão sozinha. Eu, em contrapartida, fui me tornando moço, adquirindo consciência, deixei o caderno da terceira série, fiz bons amigos, aprendi a dar valor a vida – que quase perdi em um acidente de bêbado –, vi minha família me erguer, passei por poucas e boas, vi o nascimento de um irmão, briguei com a outra irmã que já tinha, fui a praia, me diverti, sentei em mesa de bar, conversei fiado, fiz poesia, encontrei um amor para vida toda e, ainda assim, não aprendi a ser neto. O tempo passou e agora aquela única senhorinha, mãe de meu pai, que pouco conheci, já não estava mais aqui. Lembro bem de sua estatura mediana, sua pele branquinha, os cabelos encaracolados clarinhos e curtos, a delicadeza de seus movimentos e, o que mais ecoa no meu ouvido, o jeito como ela me chamava, “Pedrinho”. Um “Pedrinho” que nunca vou esquecer. O “Pedrinho”, aquele menino gordinho que deixou o Rio de Janeiro quando seu pai morreu, e que deixou lá toda e qualquer história que fosse ligada à figura paterna. A única coisa que restou foi uma velha camisa do flamengo. A possibilidade de um dia ser o menino da vovó ficou pra trás. Cresci levando bofetada de minha mãe sem uma avó para amaciar o tapa. Aos domingos não tinha para onde ir, sempre um dia triste na semana. Nunca pude dizer “os docinhos da vovó” ou dar um abraço apertado e ficar escutando as histórias de sua juventude. Acho até que por isso sempre gostei de História no colégio e, depois, acabei optando pelo Jornalismo, sempre querendo saber mais sobre o passado, faminto pelas anedotas de outros tempos.

E hoje, depois desta notícia, a partida de minha avó, senti falta de algo que nunca tive, lembrei de coisas que nunca existiram. Chegou até a vir à minha mente a imagem de uma praça extensa, cheia de pombos, um carrinho de bebê e uma velhinha sentada junto a um moço mais jovem, ambos com as mãos no carrinho, balançando, enquanto o bebê, adormecido, sonhava com a vida que o esperava.

Agora o que eu pretendo é esperar. Esperar um tempo, bom tempo, até que me venha, cutucar a perna, uma netinha, para que eu possa niná-la enquanto sonha e chamá-la pelo diminutivo; para que ela se lembre de mim pelo jeito como eu a chamava, de Heleninha.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Carnaval

Dia de Reis...

O início de um beijo ao revés

Eu vou pegar o buzu

Eu vou pegar na buzunfa

Eu vou pagar com cheque

Eu vou ficar em cheque

Eu vou abordar a polícia

Eu vou entrar no bulício

De lá não vou sair mais

Vou perder a minha paz

Vou ser um moço escroto

Minha maturidade acabou

De noite vivo em copo de bebida

De dia dou-lhe um tapa na barriga

Em final de briga

Veja só que teimosia.

Pertinente ou não

Já não me preocupo com a coerência

Ela se forma é na impertinência

Com os amigos de repique eu não me preocupo mais

Bala espoleta cacete feijão

Estilingue porrete um soco, a mão

A desordem só existe porque há ordem

E o homem só existe porque há mulher

E qual é o homem que não quer

Ficar debruçado no colo aconchegante

De uma mulher arfante?

Não obstante, um homem disse que a experiência não valia

Que o colo de uma mulher o estremecia

Ficar de bruços naqueles seios macios

Se perder naqueles pequenos rios

Não era atividade para aquele jovem

Que se deliciava na dureza

“A noite não combina com a moleza”

Dizia o herói da safadeza

A boêmia ganha toda a sua poesia é no fim do dia

Quando as portas se abrem

E a festança de comes e bebes ressurge no caldo que se dava aos pobres nas portarias dos conventos.

Ah! Esses eventos da mocidade, a juventude se embebeda de tanta liberdade

A beata se torna pagã

E quando (depois da folia) se apresenta a luz do dia

Estão todos juntos na padaria

Procurando bolo pão café ambrosia

Para degustar a beleza que é a burguesia

E assim

Aproveitar o que é ruim

A quarta-feira de cinzas

ao lado da avó Josefina

tricotando roupas finas

que nunca serão usadas.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Fotografia



A luz é contida; como em uma câmera escura.

domingo, 3 de outubro de 2010

Eleições

Final de domingo, clima ameno, expectativa da família brasileira. O homem da casa, médico engomado, comenta:

-Romário foi um dos mais votados no Rio.

A mulher, típica brasileira de meia idade, lá da cozinha indaga:

-O Mário? O Mário foi reeleito?

O filho mais velho, que come um sanduíche no mesmo cômodo onde está sua mãe, pergunta:

-Ele ta falando do Romário? O jogador?

A mãe, um pouco confusa, responde:

-Não! O Mário, Mário Dias. Paciente dele.

O homem da casa, médico engomado, finaliza:

-Eu to falando é do Romário, aquele baixinho que jogava pelo Vasco.

A mãe, completamente confusa, sem entender a diferença entre jogador de futebol e político; solta:

-Mas e o Mário?

O filho, um completo idiota, brinca:

-Te comeu atrás do armário!

O homem da casa, desiludido com a possibilidade daquilo tudo ser verdade, sussurrou:

-Porra! Mas logo com a minha mulher. O Mário me traiu logo com a minha mulher.

domingo, 5 de setembro de 2010

Ouça

Não dê ouvidos àquele menino,
Franzino,
Que te emprestou o livro de Fernando
Sabino.
Temática pitoresca!
Coisa Besta!

Não dê ouvidos ao teu amigo,
Que te deu abrigo,
Falou contigo,
Sobre as coisas boas da vida.
Sobre o quão etéreo é o magistério,
E como um buraco tem fim.

Não dê ouvidos ao seu professor,
Arrebatador,
Que formou a sua mente.
Que te transformou em um excludente.
Que te fez um jornalista que peita presidente.
Faz sentido?

Não dê ouvidos ao sistema,
Àquele que só te traz problema.
Que te causa edemas.
Que faz do seu dia um piscar de olhos sem sorrisos.
Sem amigos.
Internaliza em você uma noção porca de prazer.

Não dê ouvidos à tua mãe,
Àquela que te gerou,
E te insultou, quando necessário.
E te chamou de otário.
Você é só uma extensão de um não que ela recebeu.
Você é o motivo de gorjeta.

Não dê ouvidos aos teus sonhos.
Londres não passa de uma fantasia.
Vá além da pedagogia.
Aprenda com a poesia,
Escute a vigésima quinta hora do teu dia.
E te engrace com o potencial da utopia.

Não dê ouvidos ao amor.
Ele só te envergonha diante dos mais machistas.
É uma pedra no seu rim.
É um fiasco do deleite e da sensação,
Uma podridão.
Salgada ilusão.

Não dê ouvidos aos teus ouvidos.
Eles são apenas uma pequena partícula de um recorte auditivo do todo que constitui o universo.
Uma vaidade intrínseca,
Que te faz delirar.
No silencio do jantar,
Ou no calar das ondas do mar.

Não dê ouvidos aos maus pensamentos.
Eles são passageiros,
E se perdem no tempo.
Adulam uma parte da população que não admite incremento.
Um tormento.
Vire à direita e siga o momento.

Não dê ouvidos à massa.
Ela tem o poder de transformar a sua mente em massinha,
De te reduzir a insignificância.
De tirar de uma criança a poesia da infância.
De não dar a um homem uma sombra de esperança.
De fazer um velho pigarrear até a morte chegar.

E, sobretudo, não dê ouvidos ao Pedro.

sábado, 21 de agosto de 2010

La Rioja


Estou aqui no saguão do meu prédio, de um lado uma escadaria que me apresenta uma proposta de vida em um lugar que desconheço as alegrias, do outro, a porta da minha casa, cujo conforto é farto. Situo-me mais próximo das escadas do que da porta, isso significa que a possibilidade de eu sair rolando é mais provável. Se for o caso de eu não estiver viva quando isto chegar às suas mãos, não se torture, a culpa não foi sua. Mas acredite: a morte é melhor que a vida longe de ti. Talvez o motivo maior da angústia que sinto seja o Frank Sinatra cantando no andar de baixo. Isso porque a madrugada só esta começando, e, em pouco tempo, os gritos virão e a minha vida se decifrará num inferno. Prefiro acabar com ela antes que isso aconteça.

Não se precipite quando ler esta carta. Vá até a padaria mais próxima e compre aquele chocolate que eu gostava, e, sozinho, delicie-se, com a certeza que estarei próxima. Nos momentos de maior intimidade eu estarei lá.

Saudade é uma coisa boa, que esquenta uma dor, que por sua vez esquenta o amor. Esquenta mas não queima, só aquece, conforta. Saudade é saudável. Talvez ela se transforme em presságio de reencontro mais digno de menção, ou, quem sabe, ela se torne, com o passar dos anos, uma dor intolerante.

Não sei se outra mulher vai bater à sua porta, mas o que sei é que ninguém vai te amar como nos nossos tempos. Serei eu, só eu. A sua família te abandonará aos 35. Seus irmãos mudarão de país e a sua mãe vai apodrecer na cadeia depois de tentar esfaquear o cara que matou o seu pai. Nem mesmo aquele que você achava ser seu melhor amigo estará perto de você para te acudir, todos estarão longe. Como sei disso? Já estou do outro lado, aqui se sabe de tudo. Depois de se drogar de todas as maneiras será a sua vez de tentar a morte, mas você vai fracassar, pois não terá a quem enviar uma carta como esta.

A vaidade não te deixará ir, assim, sem se comunicar; para que futuramente seja lembrado pelos que o verão como um herói de uma época sem pretensões. Não faça do fracasso algo abortivo, entenda-o somente como cacos, plausíveis de serem reconstruídos. E assim você desiste dessa tolice e vai, aponta e vai.

Um dia, em uma conversa indireta com um mestre em odontologia, foi-me dito para que eu ficasse atento com os defeitos, pois são maiores proporcionalmente, mesmo que em quantidades mesquinhas. Escondo os meus debaixo da terra, para poder sujar minhas mãos outra vez.

27 de janeiro de 1987.
Catarina.





Catarina,*

A lágrima veio como um rojão. Um alívio para as palavras em fogo coladas a minha pele. A garganta fechou por um momento e eu achei que sufocava. O ar estava quente e o meu quarto era um cubículo abafado. Ou talvez eu estivesse muito grande ou muito inchado tentando te alcançar. Não era uma sensação humana. Sentia os meus pés como patas pesadas e respirava emitindo um ruído alto e intenso.

Não fui à padaria comer o chocolate, não senti fome. Dei outro nome ao vazio que ficou depois da carta e enchi de ódio doído de paixão por você. Estou com raiva, Catarina. Estou te odiando mais do que jamais te amaria na minha vida e dói, terrivelmente, pois sei que você se contentaria com isso. Estou com nojo da sua memória grudada na minha pele como sebo. Estou morta com o seu peso jogado as minhas costas. E você gosta. Onde quer que esteja você gosta.

Apesar disso, sinceramente não desejo que vá para o inferno, não desejo nem que parta. Gostaria de te ver rolando escada abaixo cem vezes. Amarraria-te em mim se pudesse, e rolaria eu mesmo só para sentir cem vezes a sua dor.

Estou num ônibus Catarina, estou indo para Famatina. Cadeira 23, do lado da janela, aquela onde fizemos amor pela primeira vez. Sinto o cheiro da sua calcinha. E tudo o que eu queria agora é que alguma outra coisa nos acertasse e acabasse com tudo de uma vez. Isso me excita.

Mas infelizmente para você eu não posso acreditar em nada disso e você está certa, a culpa é da minha vaidade. Se este é o meu pecado, é também o seu e estamos todos condenados. Estou partindo para o seu velório e você terá a sua carta resposta. Sujarei meus dedos de terra para enterrar o meu ódio ao seu lado, depois voltarei para La Rioja, tomarei um banho, antidepressivos, conhaque e dormirei. Se eu estiver viva de manhã não quero ver a sua sombra. Pegue esta carta e vá embora. Se eu morrer meto-lhe um tapa na cara, um beijo e vamos juntas.

18 de fevereiro de 1987.
Viviane.





*A segunda carta é de autoria de Bruna Marta.